Carta para a minha mãe. (23/06/2014)
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Bem, mãe, eu estou escrevendo esta carta porque eu jamais terei coragem de falar pessoalmente com você, não tenho coragem porque eu sei qual vai ser a sua reação, e por isso, tenho medo. Mãe, eu quero que primeiramente entenda que não estou fazendo isto por você, ou melhor, não estou fazendo isto para lhe machucar, jamais eu faria isso, estou fazendo por mim, pela a minha felicidade. Mãe, eu sei que você nunca vai aceitar e nunca vai respeitar a minha decisão, eu sei disso, mas eu tenho fé que algum dia você irá olhar para mim como uma mãe que ama o seu filho independente do que ele seja, porque acima de tudo o amor vence todo tipo de dificuldade e toda diferença, pelo menos o amor de mãe. Eu quero também que entenda que nunca foi fácil para mim, ah minha adolescência não foi nada fácil... Você nunca soube do que aconteceu comigo, nunca soube porque eu nunca deixei que soubesse de todos os problemas, de todas as piadas, de todas as humilhações, de todos os choros, de todos os pensamentos de suicídio e por todas as tentativas de consumar esses pensamentos. Mãe, quando eu estava escrevendo essa carta você entrou no quarto para me dá um comprimido para dor de cabeça e tenho certeza que não tem a mínima noção do que estou escrevendo, enfim... Mãe, durante toda a minha adolescência eu sofri muito tentando entender quem eu era e porque isso estava acontecendo logo comigo, acredite, esses pensamentos me torturam até hoje. Mãe, você nunca soube dos meus medos enquanto homem, as minhas dúvidas sobre sexo, nunca sentou ao meu lado e perguntou se eu estava bem, se eu estava passando por algo, você nunca olhou nos meus olhos e percebeu algo, nunca!!! E saiba que isso é muito ruim, porque por mais que eu mude ou sofra algo você nunca soube, porque nunca reparou em mim, nos meus olhos, no meu comportamento. Mãe, acredite, falar o que tenho para te falar não é nada fácil, porque eu sei como você vai reagir, eu sei como você é, eu sei o seu temperamento... Eu acho tudo um exagero da sua parte, para você, tudo tem que apanhar, tudo tem que sofrer, tudo tem que morrer... Mãe, não funciona assim. Eu apanhei quando era criança, mas eu poderia apanhar mil vezes, nada do que você fizesse iria resolver o que eu tinha feito, sabe porque? Porque você nunca parou para conversar comigo, você nunca se preocupou comigo. Na verdade eu nunca te respeitei, eu sempre tive medo de você, mas muito medo mesmo. Eu deixei de fazer muitas coisas, mas não por saber que aquilo iria magoar você ou iria te deixar com raiva, mas porque eu sabia que eu iria apanhar, porque eu tinha e tenho muito medo de você, e tenho certeza que você sabe a diferença entre respeitar e temer, eu temia.
Mãe, você nunca soube dos meus segredos mais ocultos, só os meus amigos mais chegados sabiam, acho até que eles me conheciam muito mais do que você. Quando eu estava em casa eu era uma coisa, quando estava fora dela e com os meus amigos eu era outra pessoa, sabe porque? Porque eu tinha medo que você me repreendesse, eu nunca pude ser a pessoa que eu sou perto de você, nunca, você não me deu espaço e mesmo se desse iria brigar muito comigo, porque eu sou totalmente diferente quando estou longe de você, eu sou mais eu, eu sou eu mesmo. Bem, mãe, talvez seja difícil raciocinar depois do que eu quero te falar, mas eu te peço que pense duas vezes antes de qualquer atitude, pense mesmo. Vamos lá começar por onde tudo começou...
Quando morávamos perto do shopping eu sofri abuso sexual de um vizinho, um senhor já, ele sempre chamava eu e mais outras crianças para jogar no computador dele e sempre, sempre, ficava atrás de mim fazendo movimentos ilícitos, se insinuando... Graças a Deus nunca chegou ao ato sexual, mas o dano psicológico foi muito grande e fiquei de certa forma traumatizado. Depois eu sempre presenciava as brigas entre você e meu pai, brigas muitas vezes violentas, lembro até do dia que sua boca sangrou muito depois que ele te bateu com uma cadeira, lembro da casa toda cheia de sangue. Lembro também dos gritos, dos xingamentos, dos empurrões... Depois eu sofri o abandono e o desprezo do meu pai, ele me trocou por uma prostituta, deixou de dá as coisas em casa para dá a essa mulher que tomou tudo que ele tinha e nós em casa passamos necessidade. Lembro do dia que eu estava morrendo de fome e não tinha nada em casa, só tinha água dentro da geladeira, a minha sorte foi a vizinha que me deu um prato de comida. Lembro também das várias vezes que ele arrombou a porta, das vezes que ele quebrou pratos, de uma vez que ele jogou a faca para acertar você e a faca ficou presa na porta, lembro das vezes que ele te chamava de rapariga aos gritos para toda a vizinhança ouvir, lembro também dos vexames nos supermercados porque ele não queria pagar a feira, lembro também das muitas vezes que fiquei durante horas esperando ele na escola, e quem sempre me buscava era o vizinho de moto quando podia... Mãe, eu me lembro de tudo e todos os detalhes. Mãe, foram muitas decepções, foram muitas lágrimas, muitas dores sentidas... Vejo muitas famílias felizes e porque eu, logo eu, não poderia ter uma família feliz também? Mãe, você não tem a mínima noção de tudo que passei e por tudo que sentir, você não tem noção.
Mãe, sabe o que tenho para te falar? Eu sei que não vai me aceitar e irá provavelmente ficar muito nervosa, mas eu preciso falar.. Mãe, eu sou gay. Eu sei que você odeia, eu sei que você acha que é pecado, eu sei que você acha que Deus me odeia e que ele ira me mandar para o inferno... Mas mãe, para um pouco e pensa: Deus é amor. Não sei em que circunstância você irá ler essa carta, mas saiba que aonde eu estiver eu vou te amar, e espero que não seja tarde demais para que você veja o filho que eu sou e sinta orgulho de ter o filho que tem, porque o fato de eu ser gay não muda o meu caráter, não muda os meus valores e princípios, não muda nada... ah, não pense que quero virar mulher, porque isso eu jamais quero virar, eu simplesmente quero ser feliz e amar e ser amado, somente. Não me descrimine mãe, por favor, porque além de ser seu filho, eu sou um ser humano cheio de defeitos assim como você e que eu não escolhi ser gay.
Te amo mãe, obrigado por todo o esforço e por toda a dedicação a mim, muito obrigado. Fica com Deus e por favor, não me esquece. Beijos.
Paulo Henrique Duarte

